26 de novembro de 2010

Visões de um futuro imperfeito parte II



Acho que é a situação político-social na Guiné-Bissau. Com certeza é a ascensão do direitismo com inclinações neonazistas na Europa. È o derretimento do gelo andino. O espancamento de pessoas na Avenida Paulista. São as ilhas de lixo se acumulando no Pacífico. O mundo já acabou no Haiti. São os moradores de rua sendo exterminados por grupos de matadores no Nordeste do país e Stanley Kubrick em seu maldito messianismo. É o mal estar de estar na civilização? E não adianta esperar que uma epidemia zumbi chegue, já chegou, não viu!? Abra bem os olhos ao passar pelos Campos Elíseos, na Luz, embaixo do Minhocão e não para nesse país tropical, vai até os becos de Baltimore. Falta de esperança, que coisa feia diriam, mas no fundo ninguém sabe bem o que esperançar para os que ficarão quando sairmos de cena. A gente só teme, já reparou? E sempre fica a sensação que não fizemos o bastante.

Minha criação cristã incutiu no fundo de minha consciência um interesse atroz por apocalipses ou pelo fim de mundos como conhecemos. Em que momento irá colapsar? E mais importante, por quê? Por quem? E depois do colapso, o quê? È inevitável que a filmografia sobre o fim da humanidade fascine. Continuaremos na seleção de películas que testemunham o fim do mundo e o depois.

Veja. 5...4...3...2...1...BOOM!!!

O Último Combate – Um filmaço. F-I-L-maço. Luc Besson estréia com os dois pés direitos nesse incrível estudo sobre civilização e brutalidade. Filmado em p&b, onde o branco e o cinza prevalecem, num futuro longínquo em que até a linguagem se perdeu alguns símbolos de um mundo organizado insistem em resistir. Civilização se conquista a força. Paus e pedras versus a espada e nem sabemos mais rezar. Lá fora o deserto infinito, à porta o maior predador de todos, e você com fome de tudo. Precisa falar que Jean Reno estraçalha?

O Dia Seguinte – De que se tenha notícia a humanidade já esteve muito próxima de um apertar de botão de seu fim. Um filme aviso sobre os resultados imediatos de uma guerra atômica. Apesar de seu aspecto low-fi a fita registra cenas aterradoras (principalmente quando lança mão as cenas com cenografia clássica e turbas de atores). Um roteiro que primou pelo realismo, apesar de deslizes bobos com aquele discursinho we are the world e a bandeira estadunidense flamulando. Vale como registro da época em que a humanidade gelava com a possibilidade da guerra final.

1984 – Tá certo tem de se falar desse filme. Belíssima adaptação por visualizar em detalhes a frieza e a desesperança do romance do senhor Orwell. Toda e qualquer forma de uniformização deve ser combatida, um mundo sem pluralidade é inaceitável e anti-humano. Os cenários e as atuações são arrasadores e te atingem em cheio. Como eles se sujeitam a aceitar serem governados dessa forma? Ovelhas!...Sorria, você está sendo filmado.

O Sacrifico – Com a densidade de um metal nobre Tarkovisky resolve por em discussão toda a filosofia humana antes que o mundo exploda. Explosões são inevitáveis, vamos nos apoiar nos ombros de gigantes: vai de Shakespeare a Nietzsche. Talvez a maior coleção de grandes frases do cinema. Talvez o pincel de Tarkovisky pinte os quadros mais absurdamente belos que já vi numa tela. Talvez. Suas cores são opacas, esmaecidas, quase faltam e delineiam profundíssimas paisagens, naturezas mortas e retratos. Uma câmera longínqua passeando elegantemente pelo casarão para enfocar o desespero de quem se depara com o fim do mundo. Fim de que mundo? Acho que algo explodiu dentro do espírito de Alexander.

WaterWorld – Não é um filme que se diga: “Puxa, mas que filme supimpa”; mas vale a sessão da tarde. Kevin Costner como um Aquaman pobre faz o que se precisa dele, fala pouco e bate muito, daria um joguinho legal de videogame. Tem o Denis Hooper também, o que é sempre bom. Fazer o quê? Eu gosto.

Final Fantasy – Um avô de Avatar. Quando saiu fez barulho, chegou-se a cogitar que seria o fim da profissão do atores reais. Muito barulho por nada. Uma pitada de Budismo no pós-apocalipse. Um trabalho de animação primoroso e pioneiro na captação de movimentos. Peca por ter um final frouxo e inconclusivo, e mais ainda por personagens que não cativam em momento nenhum e mesmo que fosse gente como a gente não daria jeito, no Playstation é bem mais legal...

Idiocracia – Você já reparou como as pessoas mais idiotas, mais brutas e mais vazias sempre sempre se reproduzem? Não conseguem garantir a paz de sua extinção genética para as gerações futuras. Num futuro em que a burrice se reproduziu e tomou o mundo de assalto quem tem dois neurônios é rei. Poderia ser inesquecível com um argumento desses, mas o criador de Beavis and Butthead não quis criar mais polêmicas e amedrontou. No resultado final é mais ou menos, vale a curiosidade.

A Epidemia – O começo do começo do fim. Não vi o original, mas certeza que George Romero abriu um sorriso com esse remake. Essas analises de reação em pequenos círculos sociais dão sempre bons filmes, acabamos nos enxergando. Cara sou fã do Timothy Olyphant. Um filme muito bem resolvido, empolgante quando deve e apavorante sempre que pode.

 
Tarantino paga um pau para o Tarkovisky e queria dar um rasteira no Luc Besson
 
-Esse mundo tá no fim mesmo. É o fim dos tempo...
-Dos tempo??? E é mesmo Vó, é mesmo.

25 de novembro de 2010

HURTS


Pronto para dançar? Essa dupla de Manchester (bom sinal) fazem uma ótima música eletrônica com um pé no saudoso Synthpop e carregam com originalidade a tocha que Depeche Mode, Ultravox e Cia. ascenderam. Mega estilosos, com vocais sisudos e harmoniosos criaram divertidos e imperdíveis refrões.



Seus clipes são imperdíveis. Aperta o play e seja feliz. Dance baby, dance!!!
Primeira música é a viciante Wonderful Life


A próxima é  Better Than Love



E para fechar, provavelmente o clipe mais bonito que você viu e verá em tempos...

12 de novembro de 2010

Gótico Chic Parte II



Dando prosseguimento a seleção de películas que dão preponderância a estética da sombra. Aqui você encontra o básico da cartilha: celeiros em chamas, castelos isolados em ilhas, florestas com formas retorcidas, a lua maior que o sol, corujas e corvos, maldições, cemitérios, delírios, neblinas, elegantes fios de sangue, praias de rochedo, Diabolus in musica e gente pálida. 
A arte gótico-romântica-sombria é inevitavelmente fascinante pelas suas recusas. Não abraçou com calor o Iluminismo o pensamento cartesiano e a ordem da máquina. Abraçou o caos de dentro do homem e do mundo natural, preferiu o sentimento desbragado ao pensamento racional, certeiro e ordenado. Por isso a angústia acima de qualquer sentimento,  o homem, que se percebeu indivíduo há alguns séculos, se sentiu inescapavelmente sozinho num mundo frio e escuro. Arte para chorar, para se dar conta da melancolia e solidão. Tudo isso contaminou de forma viral todas as artes, afinal, com tantos atrativos charmosos esteticamente e possibilidades infinitas para construção de enredos quem vai recusar vez ou outra filmar a meia luz um homem pálido de passado inexistente? Para mim é e sempre será fascinante.
Um Post em homenagem a Bela Lugosi, Andrew Eldritch, Horace Walpole, Alexandre Herculano, Charles Marturin, Bram Stocker e toda turma que usa casaca preta e cartola.


Assista os filmes e abracem a noite.

Frankenstein de 1910 – Ah cara, pelo amor! O que passava na cabeça doentia desses caras até os anos 30? Nas quatro primeiras décadas de vida do cinema foram criadas as imagens mais sombrias e assustadoras de todas. Num tem criança morta japonesa, psicopata americano ou nazista canibal que dê mais medo que esses caras maquiados de cara retorcida sem pronunciar palavra. Que Frankenstein monstruoso, arrepiante, a tradução do que assombra. Kabuki.

O Homem que Ri – O clássico herói gótico: amaldiçoado, aberrante, hostilizado, confuso e confundível, buscando seu amor que insiste em escapar. Esse filme expressionista é um cinema maiúsculo que é imprescindível para quem gosta da arte. Conrad Veidt fez algo que poucos atores se comprometem a fazer; se investiu de talento e entrega total para se imortalizar. Baseado na obra de Vitor Hugo é um filme imperdível.

Crimes da Rua Morgue de 1932 – Cenários expressionistas deslumbrantes. O filme começa com gargalhadas e sorrisos nos personagens. Os sorrisos amarelam, fecham e a boca torce, instala-se o pesadelo. Essa versão para o livro de Allan Poe tem cenas extremamente cruéis e ousadas para sua época, mas a versão galhofeira de Dupin incomoda. É melhor continuar não sabendo o que se passa atrás das janelas da cidade, você pode acabar encontrando o terror e a tragédia da metrópole. Os monstros se soltaram e não há grades que os prendam ou que nos protejam.

Histórias Extraordinárias – O gótico kitsch. Um elenco de enormes atores e diretores. Três contos de Allan Poe entregues nas mãos de três realizadores. Os dois primeiros me agradam, o ultimo é um porre, mas para quem ama Fellini, quem sabe? Destaque para lindíssima Jane Fonda e para o segundo e mais perturbador conto na direção de Louis Malle com a presença de outro coolzão Alain Delon. Vale como curiosidade.

A Hora do Lobo – Bergman consegue assombrar? Um pouco. Num p&b sempre belo (e deslumbrante quando são mostradas cenas das memórias pecaminosas) imergimos no pesadelo de um casal isolado em seu idílio. Um deles vai quebrar, sempre quebra. O problema não é o Éden, mas quem vai par ao Éden. Lá tem tantos frutos gostosos; sempre quebra. Castelos escuros, assombrados e casamentos gelados. Os fantasmas de Bergman não se divertem.

Nosferatu, o Vampiro da Noite – Klaus Kinski é assombroso, sua atuação deveria ser estudada (com certeza já é). Ele é a morte, a peste, a fome, soberbo. Herzog honrou as calças ao dar sua versão para um clássico absoluto da cinematografia de seu país. Um filme que reproduz em mim a sensação exata de estar sozinho numa casa estranha e vazia. O silêncio imenso e a sensação de que lhe enxergam e que podem atacar a qualquer momento. E Drácula ataca silencioso e sem afobação.

Família Addams 1 e 2 – Maravilhoso. Recentemente, reassisti e as lembranças de minha infância foram acrescidas de minha certeza “adulta” de que são ótimos filmes. Engraçados, cruéis, encantadores, melancólicos, uma família como qualquer outra. Raul Julia e Anjelica Huston são hilários, principalmente quando a tragédia se abate sobre seu rebento e ele fica loirinho e rosado. E reparem no cuidado da direção de arte para fazer essa comédia negra ser capaz de rasgar teu coração e te deixar gargalhando no escuro. Para assistir de tempos em tempos.

O Corvo, a Cidade dos Anjos – Todo mundo só lembra do primeiro. Essa continuação muito me agrada. Tem o Iggy Pop louco total. Tem a Mia Kirshner, linda garota gótica. O enredo é mais pesado, violento e sujo.  Nesse mundo inteiramente destruído, drogado e sem segundas chances alguns seres encontram na vingança sua única forma de redenção. A cidade corrompida lembra e muito alguns cenários paulistas atuais.

Tarantino se fantasiou de Byron nesse ultimo Halloween.

Ai que horrorrrrrrr! Dia das Bruxas é do Diabo, você sabe, né!?
Claro que sei Vó. Por isso eu comemoro o Dia do Saci.
Ai que horrorrrrrr!

5 de novembro de 2010

Jean Reno um Coolzão Francês

Esse post vai ser dedicado a outro grande ator que esta na minha galeria de ícones. Ele é um excelente ator que toma decisões ruins na hora de escolher certos papéis, é verdade. Quer saber os motivos desse cara ser fenomenal na tela?
São os olhos semicerrados em qualquer situação. É a atitude “I don’t give a fuck” mesmo quando o mundo ao redor se esfacela ou o amor de sua vida sai porta fora. É o nariz exuberante, a segunda principal instituição francesa masculina (logo atrás do adultério). É o punho da potência de um meteoro. É o fato de cobrir qualquer outro ator em cena quando seu corpanzil aparece impávido. São as poucas palavras antes de puxar o gatilho. Porque quando ele atira a bala vai para onde ele quer. É o fato de ter virado um personagem de videogame. É o fato de ser um cara bem engraçado, a sua maneira. E é porque ele de bigode é mais estilo que você de terno Armani.
Jean Reno uma força da natureza. A testosterona na forma mais elegante e blasé que a natureza já concebeu. Um símbolo de macheza inalcançável. Vamos a uma pequena seleção de filmes que tentam fazer jus ao grande ator francês.

Subway – Visualmente classudo, apesar dos imperdoáveis deslizes capilares e de vestuário dos anos 80. Uma história sobre cair na toca do coelho e descobrir um mundo maluco lá embaixo. Um pouco abaixo das solas de seus pés outro universo descortina. A urbanidade esconde uma infinidade de experiências inalcançáveis para o resto da humanidade. Luc Besson (que já foi o salvador do cinema francês) se apropria de elementos das Bande Dessinée para contar uma aventura frenética (no primeiro segundo da fita percebesse que não haverá descanso para o espectador). Claro que Monsieur Reno rouba a cena. Sem falar nada ele diz mais que um discurso de Fidel.

Imensidão Azul – Outra parceria Reno/Bresson. Um filme lindíssimo, lindíssimo. A narrativa clássica do caminho do herói. Ou a narrativa de uma amizade inquebrável carregada de todos seus elementos: admiração, inveja e competição. Ou uma história de um amor rápido e explosivo. Ou a história de integração total de raros humanos com o seu meu ambiente. Um filme que mostra que Jean Reno foi o primeiro garoto da turma a ter pelo no peito, e claro, o cara debulha em cena, engraçadíssimo. E amor só o de mãe mesmo. Assista!

O Profissional – Um dos filmes da minha vida. A equação é a seguinte: Jean Reno no seu papel mais icônico + Natalie pré-adolescente e incrível Portman + Gary Oldman no seu usual pscicopatismo + Danny badass mudafucka Aiello + Nova York limpidamente enquadrada de seus telhados = um dos melhores filmes dos anos 90. 

Ah, esqueci, a imitação que Jean Reno faz do John Wayne é de fazer o Wagner Moura parecer um ator de buffet infantil.


Os Visitantes – Uma comedinha que não faz mal a ninguém. Senhor Reno é obviamente superior (até porque ele é um nobre guerreiro) a qualquer outro ser que aparece na tela. É notável como são mostrados os costumes e alguns maneirismos medievais em comparação com os do homem moderno. Evoluímos? Sim, evoluímos.

Ronin – Alguém realmente páreo para o Monsieur Reno, Robert De Niro. Um dos grandes filmes de espionagem da era pré-Bourne. Ditou as regras para o gênero no mundo pós-queda do muro de Berlim em que antigos servidores de bandeiras ficaram ilhados sem as diretrizes de seus headquarters. Esses fantasmas vingativos vão ter de se integrar aos novos tempos, soldados sem generais viram mercenários e a vida passa a valer algumas cifras. Perseguições de carro embasbacantes nas ruas francesas, traições e vinganças. Um prato cheio para um sábado à tarde.

Wasabi – Tá certo, não é lá um grande filme, mas tem seus momentos. Como conquistar uma mulher Jean Reno style. Como lutar contra a Yakusa Jean Reno style. E a filha japonesinha nariguda é uma piadinha engraçada. De Paris a Tóquio, com seu revólver 38 de meio metro, o cara domina a situação.

22 Balas – Poderia ser um filme de máfia memorável, mas dá suas escorregadas por querer mostrar bandidos com coração e outros malvadões que pisam no pé de velhinhas. Não me venha com moralidade de bandido, nem de polícia, nem de velhinhas. As filmagens são belas e ensolaradas e o Jean Reno agüenta 22 balas no corpo, ele cospe na cara do 50 Cent.

Tarantino está esperando para criar um roteiro digno desse ator imortal. Mas ele deu o nome de Reno para sua moto Harley Davidson.

Minha Avó da risada horrores com o narigão do Jean Reno.

22 de outubro de 2010

Visões de um futuro imperfeito parte I

É interessante essa tendência a autodepreciação em relação ao futuro que aguarda a humanidade. De Orwell a Huxley, dos clássicos futuristas talvez só Asimov enxergue benesses para o dia de amanhã. Coitado do Thomas Moore, pelo menos no plano da ficção as distopias arrasaram sua ilhazinha de otimismo. Esse tipo de pensamento artístico serve de alerta de choque para que se perceba que a simples possibilidade de algo semelhante ao que esta na tela realmente venha a ocorrer é absurdo e horripilante. Faz muito sentido, a humanidade criou um potencial para destruição infinitamente maior que o de construção, na prática o medo de que o pior aconteça é sempre superior. Das páginas da Literatura para a película, esse belíssimo e instigante gênero cinematográfico é sempre uma página em branco, as possibilidades são inúmeras (de nuances do terror ao romance tudo pode ser aplicado no campo do futurismo). E não me venha com Laranja Mecânica, Blade Runner, Matrix ou 1984 que são au concour, se não viu, veja hoje um na sequência do outro. Quanto a Alphaville, relaxe que é mais chato que Segunda de manhã.
Vamos apreciar fitas que dão suas versões para o momento em que o mundo desabou por culpa das falhas inerentes de nossa raça e vamos torcer para que nossa geração não testemunhe a beira do abismo. Não vamos nos ater pura e simplesmente a ficções cientificas, mas as visões de futuro que no geral são implacáveis e passam pelos caminhos do drama, noir e até a comédia.
O futuro nos assola, e como o futuro de todos está sempre intimamente ligado a inevitável morte não é de se estranhar a visão de que o mundo como conhecemos irá acabar. Toda nossa seleção é imperdível, para ontem, veja antes que seja tarde, tudo pode acabar amanhã.

Metrópolis – A obra mater do Sci-fi. É incrível notar que tudo feito no Expressionismo Alemão impressiona até hoje e vai continuar assim a perder de vista. As imagens desse filme tatuam na sua retina. Tudo é grandioso, fatídico.

Terra Tranquila – Uma pérola do cinema que merece ser redescoberta. Fruto de um período da inventividade que tomou a produção cinematográfica da Oceania nos anos 70 e 80. Se fosse um filme estadunidense seria um clássico. Quem nunca sonhou que estava sozinho no mundo? E se fosse só você, o que iria se tornar? Rei? O bobo? Deus??? Ou um suicida? Talvez ter só sua própria companhia seja o inferno na terra. Um dia abriram a caixa de Pandora e todos os homens sumiram...sumiram? Fantasmas rondam a Terra enquanto o Sol se revolta. A influência desse filme vai de Extermínio à Evangelion. Um filmaço.

Brazil – Uma crítica tresloucada ao capitalismo mórbido? A eficiência acima de tudo? A burocracia? Ao Estado absoluto? A xenofobia? Aos atados costumes de classe ingleses? A paranóia terrorista? A absurda busca desenfreada por beleza? Pode até parecer familiar, mas é pura ficção distópica. Meu filme preferido de Terry Gilliam. Inteligentíssimo ao dosar na medida certa humor (em toda ironia inglesa) e a crítica social. Visualmente, ainda, embasbacante.

Hardware – Cult-trash total. Quando Alien encontra Exterminador do Futuro e Mad Max. Bem, só por ter no elenco Iggy Pop e Lemmy já torna obrigatória a espiada. Não falta um toque de transcendentalismo, personagens surtados e esquisitões, uma pitada de nudez feminina e um terrorzinho bem inho. Um filme de cores e enredo quente.

Delicatessen – Visualmente impressionante (atente aos créditos iniciais, uma obra de arte por si só). O tom de fabula infantil (não deixe seu filho pequeno assistir) torna a película viciante dos primeiros minutos. Jean-Pierre Jeunet é um pintor-diretor de mão cheia, direção de arte impecável. No fim das contas, ou no fim do mundo, descobrimos que mesmo em meio a devastação e selvageria ainda resta tempo e pessoas capazes de dar ternura e alívio. Nem tudo se desmancha no ar.

Ghost in the Shell / Ghost in the Shell Innocence – A raça humana precisa de upgrades constantes. Vai o cérebro vem a HD, tirem corações e instalem coolers e acabe de vez o contato humano para que venham os dados via wireless. A máquina não venceu, nos tornamos simbiontes, somos indissociáveis. E se seu espírito pudesse ser enviado pela rede? E se sua vida pudesse terminar com um toque no mouse? E se sua capacidade de aprendizagem estivesse limitada à velocidade de sua conexão? 


As questões que esse par de filmes levantam cabem em uma tese de mestrado. No meio disso tudo uma trama noir das mais empolgantes e visualmente bem cuidados que eu já vi em uma animação. É, Anime é coisa séria. Nesse caso seriíssima.

Código 46 – Só pela atuação dos protagonistas já faz do filme algo imperdível. Sem falar na engenhosidade de conceber um planeta futuro realmente plausível (poliglota, metropolizado, excludente, distante e frio, ultra vigiado e insuportavelmente controlado) em vez de um mundo medieval com carros que voam. Sei que vai parecer mentira depois que assistires, mas o orçamento era curto e tudo foi gravado em lugares que já existiam no ano da gravação, 2006. Há algo dentro de nós que não nos deixa robotizar para sempre. Algo que queima e pede companhia. Algo que atrapalha a máquina e perturba o andamento do pré-programado. Algo que deve ser impedido de prosseguir...

Filhos da Esperança – Se você tivesse de ver três filmes na vida esse deveria ser um deles. Sob qualquer aspecto os êxitos do filme são máximos: todos os quesitos técnicos, as atuações e o roteiro com sua força bíblica-homérica-mitológica. E se a esperança de futuro de toda a humanidade fosse arrasada na base, a procriação? Tudo, tudo iria desmoronar. Num mundo que não se ouve mais os choros e gritinhos das crianças os tiros e explosões são ensurdecedores.

A Estrada – Uma bela transcrição de meu romance preferido da década. A visão mais pessimista, crua e sem concessões sobre o mal que pode assolar a humanidade em seu futuro. Tudo seco, destruído e cinza. No meio disso um pai, seu filhinho e um revolver com duas balas. Uma estória colossalmente simples e forte.

Tarantino acha que filme futurista não é a dele. Mas se rolar ele colocaria Samuel L. Jackson como um traficante de emoções sem corpo e muito boca suja. 

Para minha Avó o futuro a Deus pertence.

15 de outubro de 2010

A boa e velha piada

Como bem disse Marcelo Madureira: “O humor é uma bobagem”. Sinceramente, para mim, sem o humor a vida seria uma bobagem. 
E para nós contemporâneos, cada vez mais esfolados pelo humor extremo (e não poucas vezes o humor de extremo mau gosto e burro), peças de humor cinematográfico que poderiam parecer empoeiradas e dignas de um museu sem graça se mostram necessárias, causadoras de sonoras gargalhadas e de uma atualidade surpreendente.
Vamos conhecer (para quem ainda não está familiarizado) os verdadeiros pais da piada. A sensação de já ter visto isso antes não é de toda estranha, afinal esses mestres foram emulados das mais diversas maneiras e nas mais diversas mídias (de desenhos animados aos videogames). Mas vamos parar por aqui, explicar a piada é péssimo. Aos filmes.

Em Busca do Ouro – Comer o sapato velho cozido, milhares de vezes imitado. E a cena dos pãezinhos!? Arte em estado bruto. Chaplin é um poeta da fome e da desigualdade, sua arte é a comédia dramática. Agradabilíssimo de ver, mas no final fica aquele gosto amargo.


A General / Sherlock Jr. – Buster Keaton era o cara. Disputava a vaga com Chaplin de humorista de sua geração, para a posteridade perdeu, mas levou o posto de enorme comediante. Sua arte é a comédia aventura e para tanto criou cenas impressionantes e perigosas (me perdoem os fãs de Harold Lloyd, mas sou mais o Keaton). Como um reducionismo de vez em quando não diminui grande obras A General é no fim das contas um incrível game de plataforma (Super Mario que o diga) que na fase final tem de salvar a mocinha. Sem falar de como a Guerra de Secessão é representada de maneira originalíssima para época da gravação. 

E o Sherlock Jr tem umas sacadas impressionantes como quando ele foge do covil dos bandidos. E o final da película te arremata estampando um sorriso na sua cara. Não dá para deixar de pensar em como um Roberto Begnini bebeu e muito dessa fonte, até o cabelinho vem daqui...



Uma Noite na Ópera – Um dos meus filmes de cabeceira, melhor que Lexotan. Os irmãos Marx são a síntese da transição do cinema mudo para o filme falado (vide o personagem de Harpo em contraste com Groucho). Eles sacaram com genialidade que não era mais possível um humor apenas físico. Groucho, a metralhadora de ironias e gags, é o pai artístico de Woody Allen e, por que não, o avô do Dr. House. A cena da cabine é antológica e ainda impressiona. Para ver a cada dois anos.

Quanto Mais Quente Melhor – Um minuto de silêncio para Marilyn Monroe passar... Já vimos um zilhão de números de homens travestidos de mulher para fazer graça, mas a dupla Jack Lemmon (meu preferido) e Tony Curtis é imbatível. Sim sim, o final é genial, eu sei. 


O Terror das Mulheres – Aquela velha história, adorado na França, esquecido em seu país. O pai artítico de Jim Carrey fez nesse filme uma trama encantadora e divertidíssima. As cenas da mãe de Herbert e da cama que afunda são ótimas. Seu trabalho de diretor ao filmar essa encantadora casa de bonecas gigante é muitas vezes primoroso, bem como as cores do Technicolor. O tempo passa voando ao ver o filme, o que é bom dura pouco.

Um Convidado bem Trapalhão – O pai dos Monty Pythons é um gênio. Seu sotaque indiano é ótimo. São tantas gags e piadas imperdíveis, mas para mim a cena do papel higiênico é histórica. Seu trapalhão é absolutamente encantador e o filme tem ainda todo o clima swinging sixties que não te deixa parar de assistir. Vai dizer que você não queria estar nessa festança.


Tarantino se considera um piadista de mão cheia. E considera o Hitler de seu Bastardos o cara mais engraçado da Segunda Guerra. 

Minha Vó ri até a barriga doer quando vê o Jerry Lewis fazendo careta.

6 de outubro de 2010

Em defesa do Camp

Num período cenozóico (quando existia a TV Manchete, quando mandávamos cartas, quando aparecia mulher pelada e violência na sessão da tarde, quando aprendíamos as primeiras operações matemáticas na escola com um Ábaco) essa simpática série passava depois da novela das oito às terças-feiras na TV Globo. Nesse período de hominídeos em que deuses andavam entre nós não havia TV a cabo ou internet, portanto, só restava a chance única de assistir preciosidades nos canais abertos. Talvez, por isso, os programas  se tornavam tão memoráveis.
Claro, há de se levar sempre em conta que na ultima década a HBO criou um padrão de seriedade, qualidade e, porque não, de atrevimento e inovação no tratamento dado aos seriados com LOST e 24 Horas vindo a reboque e espalhando esse paradigma para quase todos os outros seriados da TV estadunidense. Para espectadores encubados nesse padrão, produtos antigos como The Flash parecem inalcançáveis (com perdão do trocadilho) e insuportavelmente datados. Estão lá as atuações canastronas, o figurino capaz de envergonhar qualquer um com senso estético, os argumentos manjados, as risadas em uníssono no final do capítulo e os vilões descerebrados. Mas há de se tratar essas peças com maior carinho e paciência.


Tirando o fato de se tratar de um dos personagens mais interessantes em poderes e design de uniforme da História dos quadrinhos. Nas mãos de Gardner Fox, The Flash tirou os quadrinhos da cultura pulp e expandiu suas fronteiras ao infinito com a ficção cientifica.  Essa característica é representada belamente no seriado com viagens temporais, realidades alternativas, laboratórios kitsch de cientistas loucos e andróides. O seriado The Flash vem de uma tradição camp que remonta aos seriados de aventura dos anos 40 e 50 como Capitão Meia-Noite, Superman até o eterno Batman de Adam West nos anos 60. Nesse sentido, é um seriado que além de prestar homenagem a um gênero reinventa-o para sua contemporaneidade. E por falar em Batman, o filme do Tim Burton tinha acabado de implodir bilheterias por todo o mundo e os produtos da DC Comics se investiram da aura de Gotham City. Não a toa, a Central City defendida por Barry Allen tem os mesmos becos escuros e neons da cidade de Bruce Wayne. Já que estamos no campo das citações não podemos deixar de lembrá-las: vão de Laranja Mecânica (quando os punks espancam o velhinho) à Apocalypse Now; de O Sombra à Exterminador do Futuro.


Um prato cheio para quem gosta de cultura pop. Um prato fast food  cheio de conservantes, mas cheio e delicioso.



Tarantino adoraria dirigir um episódio em que Flash tem uma perna arrancada com um facão...


Minha Avó nunca ficava acordada para assistir a série. Perdeu...